A Microsoft voltou a ser legal

A minha porta de entrada para o mundo da tecnologia foi através dos produtos e tecnologias da Microsoft. O DOS, as primeiras versões do Windows, o Visual Basic, o Office, o ASP e o FrontPage me fizeram interessar por computadores e programação. Durante a faculdade, tive contato com tecnologias de outros fabricantes, como o Turbo C e o Delphi da Borland, o Linux (distribuição RedHat), o Dreamweaver, nessa época ainda da Macromedia, mas comparados com os equivalentes da Microsoft, eles me pareciam complicados e menos amigáveis. Na minha visão, a Microsoft era a empresa que realmente estava levando a computação para as pessoas comuns, como eu. Ela de certa forma moldou a visão que carrego até hoje de que tecnologia não precisa ser algo complicado, e deve chegar a todo tipo de pessoa de forma amigável e confiável.

Claro que tinha uma grande dose de inocência nessa admiração que eu sentia pela Microsoft, e isso começou a ficar claro pra mim com o passar do tempo. A empresa foi acusada de monopólio, lançou produtos inacabados e desastrosos, como o Windows Millenium, não apoiava iniciativas de código livre, não seguia os padrões do W3C pra web e muitas outras atitudes que me fizeram perceber que a empresa não era tão legal assim.

O tempo passou e as coisas foram mundando no mundo da TI. Agora, a web era o futuro. Lembro como se fosse hoje a minha primeira busca no Google, lá nos idos de 1998. Poder acessar todo o conteúdo da internet com uma busca tão rápida quanto o piscar dos olhos mudou a nossa vida pra sempre. A internet tinha chegado para ficar e, pra mim, o Google foi a primeira empresa que realmente a entendeu. Dentro de pouco tempo vieram o Orkut, o Google Desktop Search, o Gmail, o Google Books, e muitos outros. Era uma empresa de perfil jovem, focada na web, extremamente inovadora, que tinha uma ética de trabalho totalmente diferente de tudo o que eu já havia visto, que dava 20% do tempo para os funcionários trabalharem em projetos próprios que acabavam virando produtos reais (Google News, Orkut). Rapidamente o Google se tornou para mim a empresa-de-tecnologia-mais-legal-de-todos-os-tempos.

Mas como tudo é cíclico, a dominância do Google também foi caindo ao longo do tempo, com acusações de quebra de privacidade, traindo o seu slogan: “Don’t be evil”. A empresa se tornou um colosso de proporções inimaginadas, e já não era mais tão inovadora como antes, lançando fracassos como o Google Buzz, o Wave (alguém lembra deles?) e o Google+.

Foi aí que surgiu o Facebook, a rede social criada em um dormitório de Harvard, por estudantes, e que estava destinada a mudar o mundo. De novo. Eu passei a admirar a empresa por causa da sua cultura hacker, de alto nível técnico. Eles representavam o que o Google representou no começo, com o seu perfil jovem e inovador. Se o Google tinha entendido a web 1.0, o Facebook estava definindo a internet moderna, em tempo real, social e dinâmica. Quando descobri que eles desenvolveram um interpretador PHP que compilava para C++, com o seu projeto Hip Hop, minha cabeça simplesmente explodiu e eles passaram a ser a minha nova empresa-de-tecnologia-mais-legal-de-todos-os-tempos.

Foi mais ou menos nessa época que a Apple renasceu pra mim. Não com o iPhone, e sim com o iPod. Pra mim, a Apple era a primeira empresa que tinha entendido que não adiantava brigar contra o conteúdo digital, e sim encontrar maneiras de lucrar com ele. O iPod era o meu sonho de consumo, era a minha caixinha infinita de música. Depois dele, entrei de cabeça no mundo da maçã: comprei um iPhone, uma Apple TV, um iPad, um Mac Book. Aprendi a desenvolver aplicativos nativos para iOS. A maneira como o ecossistema da Apple simplesmente funcionava entre si me fascinava. Além disso, percebi que os seus produtos realmente estavam conseguindo atingir usuários que não tinham tanta intimidade com a tecnologia. Depois desse tempo todo trabalhando com programação, foi a primeira vez que achei que a tecnologia realmente estava chegando às pessoas, de todos os tipos, de maneira amigável e confiável.

Depois da morte do Steve Jobs, veio um vácuo. Nenhuma empresa de tecnologia era mais tão legal assim. De modo geral, estavam todos trabalhando para aperfeiçoar o que já tinham.

E foi aí que veio a Microsoft de novo, correndo por fora. A primeira mostra que ela poderia voltar a ser legal, pra mim, foi o Kinect. Depois disso, ela abriu o código fonte de diversas partes do .Net Framework (e vem abrindo constantemente outras partes desde então), além de garantir que ele vai rodar em Linux e Mac. Também anunciou que o Windows 10 será uma atualização gratuita (alguém poderia imaginar Windows de graça há alguns anos atrás?), e agora, lançam o HoloLens:

A Microsoft não lançava nada que me empolgava tanto desde o primeiro Surface, de 2007:

Agora ela fez de novo. E volta oficialmente a ser a empresa-de-tecnologia-mais-legal-de-todos-os-tempos pra mim.

  • Rafael

    “Agora ela fez de novo. E volta oficialmente a ser a empresa-de-tecnologia-mais-legal-de-todos-os-tempos pra mim.”

    Só quando essas coisas realmente funcionarem. Ou então teremos tela azul pela casa inteira!